Quimioestratigrafia da porção basal do Grupo Bambuí no sudoeste do Cráton do São Francisco: implicações para os paleoambientes de Gondwana

Matheus Kuchenbecker, Marly Babinski, Antônio Carlos Pedrosa-Soares, Leonardo Lopes-Silva, Felipe Pimenta

Resumo


O Grupo Bambuí, mais importante unidade de cobertura do Cráton do São Francisco, tem sido alvo de intensos estudos e debates, entre outros motivos, pela possibilidade de correlação com eventos glaciais globais. A maior parte dos dados quimioestratigráficos disponíveis, no entanto, provém de amostras coletadas em afloramentos, sujeitos a expressivo intemperismo químico. Neste trabalho, é apresentado um levantamento quimioestratigráfico de alta resolução, baseado em análises de C, O e Sr realizadas em 53 amostras coletadas em 175 m de sequência sedimentar contínua, livre de intemperismo. Tal sequência foi obtida a partir de testemunhos de sondagem realizada na porção sul do Cráton do São Francisco, onde ocorrem rochas das formações Carrancas e Sete Lagoas, as mais basais do Grupo Bambuí. Os testemunhos revelaram contato extremamente irregular entre uma camada de diamictito e seu embasamento, um granodiorito foliado de idade arqueana. Dados sedimentológicos e geocronológicos indicam que o diamictito representa um tilito de alojamento, que apresenta contato brusco com a sequência carbonática sobrejacente. Essa sequência se inicia com calcário impuro, que exibe leques de cristais pseudomorfos de aragonita e delgadas camadas de folhelho negro. O calcário passa gradacionalmente para um intervalo argiloso, que por sua vez volta a gradar para uma espessa sequência de calcário com laminação microbiana, sucedido por dolomito estromatolítico no topo da coluna. As assinaturas isotópicas de C e O permitem a identificação de três intervalos distintos. O Intervalo I, basal, corresponde a um carbonato de capa, exibindo valores negativos de δ13C (c. -4‰), e grande oscilação nos valores de δ18O (-6 a -15‰). O Intervalo II exibe marcante homogeneidade nos valores de δ13C e δ18O, que se situam em torno de 1‰ e -7‰, respectivamente. No topo, o Intervalo III exibe uma grande excursão positiva dos valores de δ13C (até 8‰) e δ18O (-8 a -3‰). Razões 87Sr/86Sr variam entre 0,7075 e 0,7077, obtidas exclusivamente em amostras do topo da sequência. A assinatura geoquímica das rochas carbonáticas mostrou-se fortemente controlada pelo conteúdo terrrígeno, concentrado sobretudo nas unidades mais basais. Amostras livres da influência de elementos terrígenos mostram razões Y/Ho variando entre 25 e 50, o que sugere a influência de água doce durante a deposição dos calcários. Com base nos dados obtidos, conclui-se que a porção basal da sequência estudada representa um par “diamictito-carbonato de capa” relacionado a um dos eventos glaciais que ocorreram entre o fim do Neoproterozoico e o início do Paleozoico. Além disso, discrepâncias nas razões 87Sr/86Sr, quando comparadas às curvas globais de evolução isotópica, podem ser atribuídas à influência da água doce em um ambiente marinho restrito. Tendo-se em vista o contexto regional, a Bacia Bambuí representaria, no limite Neoproterozoico/ Paleozoico, uma bacia marinha restrita, total ou parcialmente circundada por cadeias de montanhas, no interior de Gondwana. Em seus estágios iniciais, a sedimentação teria ocorrido sob influência de um episódio glacial, cuja fase de degelo foi responsável por significativa entrada de água doce no mar. Com o gradual aumento de temperatura, a atividade biológica no mar teria aumentado progressivamente. Por fim, um súbito aumento na atividade biológica pode ter sido catalisado por mudanças paleogeográficas causadas pela tectônica ativa.

Palavras-chave


Grupo Bambuí; Quimioestratigrafia; Cráton do São Francisco; Neoproterozoico; Gondwana.

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DOI: http://dx.doi.org/10.1590/2317-488920160030285

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